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“Voia! Cademe dosso”, a preguiça e a gula

Esse dito me foi ensinado pelo meu pai e, traduzido do dialeto veneto, significa mais ou menos isso: “vontade! caia sobre minhas costas”!

Hoje ao voltar de uma caminhada puxadíssima com o Diego que, neste dia lindo, naturalmente estava uma delícia, pensei nesse ditado! Adoro sair para praticar esportes, ainda mais ao ar livre e ainda mais com o meu personal husband! Sempre quando vou fico feliz e satisfeita e volto mais animada! O problema é ir. Me dá uma preguiça…

É nesses momentos que me lembro desse ditado! Bem que a vontade podia “cair” em cima de mim! Não só a de fazer exercício, mas a vontade de emagrecer bem poderia cair nas minhas costas! Quer dizer, a vontade de emagrecer eu tenho, o que me falta é a vontade de parar de comer!!!! Tô precisando muito perder uns quilinhos, pois desde que voltei a trabalhar achei todos os que eu tinha perdido depois que o Pedro nasceu e mais alguns que nunca tive!

O problema é que sou muito gulosa. E no meu trabalho tenho duas coleguinhas diabinhas que passam nos oferecendo guloseimas, a gente mal pensa numa safadeza gatronômica e elas já estão providenciando. Só que elas, nos seus 20 anos e poucos anos, queimam todas as calorias no processo de digestão e nós – em nossos 30 e muitos anos – ficamos com essas calorias todas acumuladas em pequenos pneus no abdomen e outras partezinhas estratégicas do corpitcho e não tem corrida ou academia que os retirem!!!

Trabalhar com o que a gente gosta e fazer parte de uma equipe legal como a nossa não tem preço. Faz o tempo longe do Pedro ser menos dolorido para uma mãe-grude como eu. Mas comer tudo o que oferecem e um pouquinho mais, não dá! Esses dias uma das gurias saiu com uma tirada impagável, respondendo a outra que estava planejando “matar” o treino para fazer compras ela retrucou prontamente dizendo: “Claro, não vamos à academia para ir ao shopping e no verão invés de vereanear na praia vereaneamos em Gramado”. Só um parenteses EU JURO que não era eu a que queria matar o treino! Eheh

Nunca fui magrinha, também nunca fui gorda de sofrer bullying, eu era (e acho que ainda sou) um meio termo. Me lembro das gozações por ser míope, pois desde pequenina usava um óculos fundo de garrafa e sofria por isso, mas a gordura não chegava a atrapalhar, sob o meu ponto de vista. Já os meus pais, super exigentes, ficavam loucos! Mais ainda porque meus “esportes” favoritos eram xadrez e canastra! Era um desastre total, especialmente nos esportes com bola!

Na adolescência então! Nossa! Me levaram a quase todos os endocrinologistas de Porto Alegre e não acharam problema nenhum, do ponto de vista médico. Para emagrecer tinha era que deixar de ser gulosa e só! Ou seja, tomar vergonha na cara! Mas eu nunca tomei. Me lembro como se fosse hoje a cara de decepção do meu pai quando foi me buscar no aeroporto depois de uma temporada nos EUA na qual eu tinha experimentados TODOS os sabores dos sorvetes Ben & Jerry’s! Ele ali tristão vendo a filha rechonchuda e eu tri feliz com a mochila recheada de Twix e KitKat!

Aí me botavam de volta nos – arghhh – endocrinologistas, nutricionistas e afins. E eles vinham sempre com as mesmas receitas: comer de 3 em 3 horas, não pular o café da manhã, comer pouco a noite! Cortar o sal, cortar os doces, cortar as frituras e tudo isso sem cortar os pulsos.

A parte de comer de 3 em 3 horas eu adoro. Eu detesto pular refeições. O problema são as coisas que gosto de comer: bolacha recheada, chocolate, negrinho, branquinho, sorvete, etc. Amo uma saladinha, do fundo do coração, mas depois da saladinha sempre acho que mereço uma boa sobremesa!!! E depois de um almoço reforçado também, afinal já tô engordando, então uma “sobremesinha” não vai fazer diferença, não é mesmo?

Acho que não sofri muito também nessa época de escola, porque o padrão de magreza não era tão exigente como hoje em dia, mesmo porque as roupas que nós usávamos não “valorizavam” o corpo. Era tudo bem largão, comparado com agora. Claro que tinham as “deandês” mas a gente morria de vergonha de usar (naquela época ainda havia a vergonha, por incrível que pareça!). Acho que fiz parte da última geração que podia trocar camiseta com o irmão, pois era tudo igual. Depois vieram as baby-looks e isso ficou obsoleto e, sou obrigada a admitir, embora as camisetas do meu irmão fossem muito confortáveis e tivessem estampas que eu amava, esteticamente na minha pessoa – olhando hoje – não ficavam nada bem!

Além da moda ter evoluído muito desde os anos 80, as pessoas e o mundo também evoluíram. Acho muito legal o fato de atualmente a gurizada se cuidar cada vez mais cedo e ter uma maior consciência corporal, que vai desde uma boa alimentação à prática de esportes. Isso é extremente saudável e a saúde é nosso maior bem, por isso importantíssimo cultivá-la. No meu colégio tinha uma placa enorme que dizia “mente sã em corpo são”, eu demorei para entender que isso é uma baita verdade, sem dúvidas.

Mas, por outro lado, há um maior exagero e uma “ditadura” da magreza cada vez mais forte que inclui um preconceito – horrível, sob meu ponto de vista – com os gordos. Sim, hoje o gordinho é visto como um perdedor, um relaxado, um cara que não se cuida e que provavelmente também vai ser relaxado em outros aspectos da vida pessoal e do trabalho.

Vivemos numa época de conscientização e inclusão social e isso é muito positivo. Tenho certeza de que neste aspecto eu vivo num mundo bem melhor do que os meus pais viveram e também tenho certeza que o Pedro viverá num mundo bem melhor do que o que eu vivi.

Mas, por enquanto, não tem lugar para os gordinhos nesse mundo! Vocês podem ver nas novelas, por exemplo, há espaço para todas as minorias e respeito às diferenças. Sempre há uma ou mais campanhas de inclusão social. Mas o gordinho nunca participa. Ele serve apenas para os papéis cômicos e olhe lá.

Até o Antonio Calloni, que era um gordinho tão bonitinho com lindos olhos azuis, deu uma “enxugada”. E o que dizer do Faustão e a sua magreza bizarra e verde? É a preocupação com a saúde, me argumentam, mas eu não estou convencida! Acho que o Faustão fez um pacto com o demo, pois viu que na TV ninguém sobrevive se é gordo! E eu não vou estranhar nada se qualquer dia o Jô Soares desaparecer e reaparecer “sarado”.

Será que as pessoas que excluem os gordinhos e os culpam por serem gordos não sabem o quão difícil é emagrecer nesse mundo em que uma lata de leite condensado é vendida em qualquer supermercado, sem nenhuma advertência? Se para mim perder alguns quilinhos já está sendo uma luta, imagina para quem quer perder mais?

Ahhhh… sei que vão me acusar de estar advogando em causa própria, mas ando com muita pena dos gordinhos e, sim, esse ano vou passar o verão em Gramado! Sem dúvidas!

Com um óculos desses quem vai reparar em uns quilinhos a mais???

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Arquivado em Alimentação, Crescimento (dos pais!)