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A pequena notável

Minha primeira montagem de fotos "virtual", ficou bem tosca, mas prometo me aprimorar até chegar num nível "scrapbook" nem que demore umas 20 encarnações!!!

A minha Vó Suely, “Lili” para os bisnetos, sempre diz que “só há salvação na família”. Eu achava que só havia salvação em Cristo, mas se a Vó Suely diz que só há salvação na família é porque só há salvação na família mesmo! Ela sabe das coisas.

Mulher de sorriso largo e opiniões fortes. A minha pequena notável.

Todos na família somos tocados por ela e por sua história, de alguma forma.

A Vó Suely é loira platinada, a Marylin se viva fosse não seria tão parecida com ela mesma como é minha avó Suely. Linda, cheia de vida, alegre e sem drogas. Mesmo das drogas “lícitas” se permite apenas um vinhozinho do Porto de aperitivo ou vinho branco para acompanhar as refeições. E apenas quando tem companhia (pois beber sozinho, diz ela, é coisa de alcoolista).

Não usa drogas e tem um único vício: doces! Óbvio que eu herdei.

Acho que este estilo de vida dela deu certo, pois tem 85 anos e está excepcionalmente bem.

Além de linda, loira e sábia, a minha Vó fala um português corretíssimo, em que pese arcaico. Ela corrige nosso português direto e sem piedade. Não poupa nem os namorados. Entrou para a família, ou chegou perto dela, vai sofrer as críticas ferrenhas da Vó Suely.

Por outro lado, sofre um verdadeiro bullying dos netos por causa de seu jeito estabanado e do vocabulário próprio, recheado de palavras antigas e extremamente formal. A Vó Suely não vai ao banheiro, ela vai ao “toalete”; não anda de táxi, e sim de carro de praça; adora vermelho, mas nunca usou essa palavra, para ela é “encarnado”; também não usa roupa, mas traje (seus trajes encarnados são lindos); para ela o Pedro não faz xixi ou cocô, ele urina e evacua; guarda a comida na frigidaire; e nunca xingou os filhos, ela zurzia com eles (por isso deram certo!).

A Vó Suely nunca reclamou da gozação dos netos, pelo contrário, morre de rir. As risadas da Vó Suley são altas, sonoras e quando ela ri aparecem bem os dentes. Os dentes dela são lindos, o que é impressionante para uma mulher da idade dela e – acrescento com orgulho – em que tudo é original de fábrica. Ela fica ainda mais bonita quando dá risada.

Nelson Rodrigues, quando perguntado sobre se as mulheres não reclamavam de seus comentários machistas, respondeu “Não, só as neuróticas, as normais morrem de rir”. Assim é a Vó Suley, morre de rir com o nosso bullying e nunca deixou de lado esse jeito dela para tentar ser “moderna” ou agradar a nós netos e, menos ainda, os bisnetos. Segundo ela hoje em dia vivemos “a ditadura dos filhos”, culpa, entre outras coisas , da “sociedade de consumo”.

A Vó Suley não é discreta. Seus “trajes” são monocromáticos e em cores fortes. Além do encarnado, usa lilás (mais para roxo), amarelo ouro, verde bandeira, azul forte e assim por diante. Nada de begezinho. Ela usa preto também, mas confesso que não gosto muito não. Ela tem vida demais e o preto parece que limita isso.

Seus acessórios são um show a parte. Nunca sai sem um belo colar, brincos e anéis tudo combinando com a roupa, ou melhor, com o traje! A bolsa também sempre combina (ainda não inventaram cor que ela não tenha bolsa igual). No inverno jamais sai sem luvas e sua coleção de luvas, assim, como as bolsas, abrange todas as cores possíveis e imagináveis. Ah, ela também é adepta dos “broches”. Particularmente, acho que os broches foram inventados para ela e por causa dela. Nunca ninguém soube ou saberá usar broches como minha avó usa.

A grande paixão da minha avó, além da família, são as viagens! Paris, principalmente. Ela conta que demorou muito para começar a viajar e quando conheceu Paris já era casada com filhos. Diz que nós temos muita sorte pela facilidade de conhecer o mundo. E, mais uma vez, tem razão.

Quando estava grávida do Pedro, na 13ª semana, embarquei com ela e toda a família para Paris. Dos 8 aos 80 anos haviam representantes de nossa pequena, mas ímpar, família. Ela queria passar o anivesário de 85 anos lá. E assim foi. A viagem em família durou apenas uma semana e foi um sonho. O ponto forte foi o jantar comemorativo, num restaurante escolhido por ela, não em razão de estrelas do Guia Michelin (não tinha) e nem do preço (tampouco era barato), mas porque tinha a decoração “art noveau” mais linda que existe e ela tinha razão.

A Vó Suely ama Art Noveau, ama Belle Époque e ama – de paixão – o Proust. Já eu amo Bauhaus, Art Déco e nunca li uma linha de Proust.

Só que, depois que o resto da família voltou para casa, ficamos apenas nós duas “abandonadas naquele enorme deserto chamado Paris” e  ali começou uma outra viagem e essas duas criaturas de gostos tão diferentes começaram a se encontrar e a partir dali e tive a felicidade de conhecer a Paris da minha avó, uma visão que jamais tive e que jamais terei da cidade. A visão de quem viveu uma época da história que eu não vivi e só conheço dos livros e, agora, dos relatos de minha Vó.

Ela me levou nos cafés onde iam os escritores que ela lia, nas sua livrarias preferidas, nos jardins mais escondidinhos, nas igrejas mais afastadas e conheci até um “Museu do Leque”. Nada dos passeios e museus usuais pois ela queria conhecer “coisas novas”, só que achar coisas novas para uma pessoa que desde que eu nasci vai a Paris ao menos uma vez ao ano é bem complicado, sob o meu ponto de vista, é claro, não para ela. Ela tinha um caderninho seboso que herdou de meu avô, recheado de anotações, algumas ainda com a letrinha dele, uma caligrafia miúda inconfundível. No caderninho, além das anotações, haviam também recortes de revistas e jornais com os lugares que ela queria ir. Fomos a alguns, não a todos, pois “é importante deixar algo para ter motivo para voltar”, pois ela não tem dúvidas de que no outro ano estará lá novamente.

E assim é sempre. No outro ano minha avó estava lá de novo. Eu não estava junto, fiquei em Porto Alegre reinicianando minhas atividades laborais após 6 meses de licença maternidade. Mas daqui acompanhei as aventuras pariesienses da minha pequena notável que desta vez também estava acompanhada de uma grávida, minha prima Maria Otília, a Pi, que ainda não sabia se era menino ou menina.

Pois quem acompanhou a dupla na última primavera em Paris foi a pequena Luiza que estava na barriga da minha prima e que nasceu hoje às 6h pesando 3615 g e medindo 50,5 cm… BAITA GURIA!!! , mais uma notável para alegrar a família! É a 3ª bisneta da Bisá Lili, que adora contar orgulhosa que sua “descendência” inclui 4 filhos, 7 netos e, hoje, 3 bisnetos!

A Luiza é a 1ª menina entre os bisnetos, vai herdar todos os frufrus das mulheres vaidosas desta família e ser MUITO, MUITO amada!!!

Que Deus abençoe esta mimosa-querida!!!

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