Pausa para Chico Buarque

"Eles que não inventem de batizar meu irmão de Francisco...Senão já viu: Chico Bento"

Eu, eu sou um jumento

Não sou bicho de estimação

Não tenho nome, nem apelido

Nem estimação

Sou jumento e pronto

Na minha terra também me chamam de jegue

E me botaram pra trabalhar na roça a vida inteira

Trabalhar feito jumento

Pra no fim… nada

Minha pensão, nem uma cenoura

Acho que é por isso que às vezes também me chamam de burro

Eu nem me incomodo

Mas outro dia

Eu tava subindo o morro com quinhentos quilos de pedra no lombo

Tava ali subindo quando ouvi um paid’égua falar assim: “Mas que mula preguiçosa sô!”

Fui ver e a mula era eu

Aí eu parei: Mula! É demais! E resolvi dar no pé

Tomei a estrada que leva à cidade

E fui seguindo naquela escuridão

Naquela humilhação

Naquela solidão que nem sei

Não sou disso não

Mas me deu uma vontade arretada de chorar

E chorar, e chorar aos soluços

E pensava com meus borbotões

Jumento não é Jumento não é

O grande malandro da praça

Trabalha, trabalha de graça

Não agrada a ninguém

Nem nome não tem

É manso e não faz pirraça

Mas quando a carcaça ameaça rachar

Que coices, que coices

Que coices que dá

Essa pequena historinha é a letra da música “O Jumento” do Chico Buarque que está no Musical “Os Saltimbancos”. Reza a lenda que o Chico, exilado na Itália, viu o musical infantil com letras de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov e resolveu fazer sua versão em português, colocando algumas músicas a mais e mais um muito de sua genialidade.

O musical dos italianos havia sido inspirado no conto Os Músicos de Bremen dos Irmãos Grimm e adaptado com um viés político que o Chico na época (anos 70), sem maiores dificuldades, sendo quem era, logo transpôs para a realidade brasileira. O resultado foi felicíssimo e até hoje o musical faz um sucesso danado.

A primeira montagem foi histórica, no Canecão, com Marieta Severo como gata, a Miúcha como galinha e o Grande Otelo como cachorro. No coro infantil alguns filhos de artistas, entre eles a Bebel Gilberto, então bem pequerrucha. Vendo a foto dessa gente toda no encarte eu fico imaginando que toda a montagem desse espetáculo e os ensaios devem ter sido uma diversão enorme. Imagina trabalhar com uma turma assim com tantas pessoas talentosas, mais um monte de crianças e em cima de músicas do Chico? Deve ter sido fantástico.

Minha mãe conta que nos levou ao musical no Canecão, eu não lembro pois era muito pequena. Mas lembro muito bem do LP dos Saltimbancos que tocou muito na nossa “eletrola”. Minha música preferida era a dos gatos “Nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres”. Mas sabia de cor e salteado TODAS e até hoje elas martelam na minha cabeça como uns “Ponêis Malditos” do bem. Mais ainda depois da maternidade, pois voltei a escutá-las com o Pedro.

Pois é, eu como todas as mulheres do Brasil, sempre encontro uma música do Chico que encaixa perfeito no momento em que estou vivendo. Só que entre tantas músicas lindas, nesses últimos dias eu estava me sentindo o perfeito jumento e a própria Geni! Então essas músicas ficavam martelando no meu cérebro. “Trabalha, trabalha de graça” e “Joga pedra na Geni”. Final de ano é sempre assim para todo mundo. Estoura um monte de coisas de tudo que é lado, a gente trabalha horrores, a coisa parece que não rende, não vai ter fim e o povo em geral tá estressado e sai descontando no primeiro que vê pela frente, que geralmente é você!

Mas, antes que a carcaça ameaçasse rachar, eis que surge um showzinho do Chico Buarque, para lembrar que “pelo menos uma vez na vida eu vou levar a vida que eu pedi a Deus”! E foi assim que aconteceu, depois de uma semana bem estressante sem babá (parte boa!), sem sogra, sem mãe e com muito trabalho dentro e fora de casa, não apenas surgiram os ingressos a tanto tempo comprados e por isso até esquecidos e – muito mais importante – surgiu um “cuidador” para o Pedro, o que nos permitiu uma pausa luxuosa na rotina para ver e ouvir o Chico.

Participar de um show com tanta poesia é um carinho na alma. Sei que soa clichê feminino, mais é inevitável: o Chico nos entende tão bem, porque na realidade somos na essência todas muito parecidas. Somos Bárbaras, para as quais nunca é tarde e nunca é demais. Somos a Noiva da Cidade que com a janela escancarada quer dormir impunemente. Somos fortes Helenas, Mulheres de Atenas. Somos Aquela Mulher que quando está com o ser amado não cuida do mundo um segundo sequer. Somos a Rosa que arrasa o projeto de vida e depois some na madrugada. Somos a Ana de Amsterdam que arriscou muita braçada na esperança de outro mar. Somos a Beatriz que vai ensinar a não andar com o pé no chão. Somos a Rita que se foi sem levar um tostão mas causou perdas e danos. Somos a Carolina que guarda nos olhos toda a dor desse mundo. Sentimos a dor da Angélica que não pôde agasalhar seu anjo e deixar seu corpo descansar. Também somos a Iracema que tem saído ao luar com um mímico e ambiciona estudar canto lírico. Somos a suave Cecília que deve ser apenas susurrada, pois nem mesmo as sutis melodias merecem seu nome espalhar por aí. Somos a Joana que geme de loucura e torpor. A  Ligia de olhos morenos que metem mais medo que um raio de sol. A Luiza para quem foi guardado mais de sete mil amores. Por isso esses poemas todos e outros mais, assim como aconteceu com a Teresinha, se instalaram como um posseiro dentro de nossos corações!

E por tudo isso e simplesmente por isso passei de Geni-Jumento à minha realidade de mulher-do-Poliana-mãe-do-Pedro ou seja lembrei que eu era a mulher mais feliz do mundo e estou com todo o gás para encarar esta finaleira de ano!

"Eles que não inventem de batizar meu irmão de Francisco...Senão já viu: Chico Bento"

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