Papai Noel, amigão da minha tia

Eu estava na loja Neutral em Rivera quando ouvi aquela voz muito familiar, vindo direto de algum lugar da minha infância. Olhei para trás e lá estava ele, cansado, sentado num degrau de escada. Sim, num degrau de escada, pois nessas freeshops da vida não há sequer um mísero banquinho para as pessoas sentarem, é tudo arquitetado para a gente comprar e sair correndo dando espaço para novos compradores. Não respeitam nem ao menos um velho senhor e, mal sabiam eles, estavam tratando mal o Papai Noel em pessoa!

Sim, aquele senhor sentado na escada era o bom velhinho, ou seja, o melhor cliente que eles poderiam ter. E nem ao menos foram capazes de providenciar um banquinho. É o fim da picada, mas esse é o mundo em que vivemos.

Olhei uma, duas vezes e tive certeza. Era ele. Aquela voz é inconfundível (ho ho ho) e mesmo não o vendo há muitos anos não tive dúvidas. Ele também me reconheceu, “não nos víamos desde o enterro da tua Tia” me falou. Sim, o Papai Noel era “amigo-íntimo”, “assim ó” com a minha Tia Lucia, irmã do meu pai, que faleceu faz tempo e que era daquelas pessoas eternamente crianças, sempre entusiasmada com um brinquedo novo. Isso explica bastante a amizade e a cumplicidade que eles tinham. Ele é um senhor bem velhinho (claro), mas inteiraço (tem que ser, né?) e quando está a paisana atende pelo nome de Henry.

Meu pai me contou que o Henry tinha esse nome em homenagem ao Henry Ford, porque o pai dele adorava carros. Diz que o nome chamava a atenção na Bento Gonçalves da época (anos 40), onde todos eram batizados com nomes italianos ou nomes ufanistas como “Brasília-Itália”. Mas meu pai – na sua ingenuidade – não sabe que não foram os carros e sim o fordismo que levou o Vovô Noel a batizar o Henry assim. Fordismo tem tudo a ver com a atividade profissional de Papai Noel.

Pois o “Henry”, mesmo após muitos anos, e mesmo só tendo convivido comigo na infância me reconheceu, o que comprova mais uma vez que ele – e somente ele – é o verdadeiro Papai Noel, pois o bom velhinho para exercer seu ofício, necessita uma ótima memória. Trocamos mais algumas palavras, contei o que estava fazendo, que tinha agora um filho e fui buscar o Pedro que estava noutro setor com seu Pai, pedi que ele esperasse que eu queria apresentá-los.

Quando fui buscar o Pedro, fiquei pensando se era certo eu lhe mostrar o Papai Noel assim “a paisana”. Vai que ele reconhece quando o velhinho for entregar o presente dele no Natal. Vai que ele fique decepcionado por verificar in loco que o Papai Noel não fabrica pessoalmente todos os presentes. Ainda está meio cedo para eu explicar que a fábrica do Papai Noel já não dá conta da demanda há algum tempo e por isso ele, assim como nós, aproveita as barbadas dos freeshops.

Mas não poderia deixar de apresentá-los, mesmo porque acho que ele nem desconfia que eu sei que ele é o Papai Noel. O Pedro gostou dele (esse guri tem um sexto sentido!) e acho até que eles trocaram uma idéia sobre o presente de Natal. Nessa idade é melhor ele ver o Papai Noel assim com roupas do dia-a-dia, pois com freqüência crianças pequenas se assustam com a indumentária do Papai Noel. O Pedro certemente se assustaria, pois ficou tremendo quando passamos pelo Mickey que estava recebendo as crianças com mini-tabletes de Twix na frente da loja. Quase fico sem foto do Mickey e, pior, sem Twix!

O encontro com Papai Noel foi formidável, sobretudo porque invocou em mim uma série de lembranças da minha Tia, que era uma pessoa fora de série, das nossas idas a Bento Gonçalves e da minha infância. Também foi bom ter visto e conversado com ele ali, pois na véspera do Natal quando ele nos visitar a trabalho nunca poderemos falar das nossas lembranças e das coisas que acontecem durante o resto do ano, quando ele não está se ocupando com o ofício de Papai Noel. Só quem teve uma tia como a minha, tem o privilégio de contar com a verdadeira amizade do Papai Noel.

Foram essas e outras lembranças que nos acompanharam durante nossa viagem de Livramento à Estância do Tio Luiz. Foi o encontro com o Henry que desencadeou essa série de boas lembranças e me deu a oportunidade de apresentar ao Diego uma parte da minha infância que ele ainda não conhecia.

Depois que você tem filhos já não dá mais para recitar aqueles versos do Casemiro de Abreu o que nos obrigavam decorar no colégio “Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!”, pois a realidade é que os filhos são uma forma muito concreta dos anos trazerem de volta a nossa infância, não apenas revivendo ela, mas também vivendo uma nova  (e mais tecnológica) infância!

Uma das provas de que nossos filhos nos permitem (re)viver a infância é que nas casas que não tem crianças o Papai Noel apenas deixa o presente embaixo da árvore quando já estamos dormindo e nem ao menos o vemos. Ele só entra e conversa nas casas que tem crianças.

1 comentário

Arquivado em Viagens

Uma resposta para “Papai Noel, amigão da minha tia

  1. irumar

    espero sempre pelo dia que escreves: gosto muito do teu jeito de relatar as tuas vivencias, ainda mais que sao de Bento Goncalves ,onde tb ia em crianca na casa dos meus tios. Minha tia nos esperava com a mesa coberta de agnolini feita por ela .

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