A amamentação, o dentista e o id

Muito mais importante que o 11 de setembro foi o 9 de setembro, sexta-feira passada, o dia no qual o Pedro fez sua primeira visita ao dentista. Pois é, o mocinho é bem precoce no quesito dentes, está com 9 meses e já nasceram 8 deles na frente, 4 em cima e 4 embaixo e está nascendo um lá atrás também.

O Pedro se comportou muito bem até o dentista abrir a boquinha dele para escovar os dentes. No momento em que ele colocou uma escovinha (do Barney) na boca do meu nenê (não, a escovinha não toca “so-mos-u-ma-fa-mí-li-a-fe-liz”) o guri abriu o berreiro. Eu segurando o pobrezinho, morrendo de pena, e o doutor, sem dó em piedade, escovando bem os 8 dentinhos dele, como se nada estivesse acontecendo. Para o meu pavor a gengivinha do meu anjo começou a sangrar! Neste momento o dentista, aquele monstro horroroso, me olhou com a maior calma e tranqüilidade do mundo e disse: “tu tens que ficar calma, segurar ele com firmeza, e não deixar transparecer o nervosismo, senão isso passa para a criança. Viste que a gengiva dele está sangrando? Isso é gengivite e ocorre porque ele não anda tendo os dentes bem escovados.”

A partir dali eu já comecei me sentir “a” derrotada. A culpa de que ele não andava escovando bem os dentes era totalmente minha. A babá já tinha me alertado que estava na hora de comprar uma escovinha de dentes para ele e eu – como detesto a babá, aquela monstra que tem o privilégio de passar as tardes com ele e ainda chama isso de trabalho – naturalmente não obedeci, preferindo ficar usando por mais um pouquinho o “dedal” (aquela escovinha que se coloca no dedo e que – aprendi na consulta – serve apenas para massagear a gengiva). Sim, eu desobedeci a babá por um capricho idiota meu e agora meu lindinho estava com gengivite. E nem consultei o Diego sobre isso. Sou mesmo péssima. Neste momento me dei umas dez chibatadas imaginárias e fiquei pensando que nem rezando mil rosários conseguirei o perdão divino.

Mas isso não era nada. O pior ainda estava por vir!

Depois que ele tirou a escovinha da boca do meu lindo (que automaticamente parou de chorar), ele se virou para mim e disse: “Agora o Pedro vai brincar e eu vou conversar um pouquinho com a mamãe” e aí ele fez uma pergunta/afirmação que me derrubou de vez: “Ele tem mamado na madrugada?”

Sim, ele acorda umas 3 vezes por noite e mama! E depois ele dorme de novo sem escovar os dentes! Foi sempre assim? Não, o Pedro com 30 dias já dormia da meia-noite às 6h non-stop e daí para frente só progrediu, era o que a Encantadora de Bebês chamaria de “bebê-anjo”. Só que quando ele fez 6 meses e eu voltei a trabalhar ele começou a acordar na madrugada para “compensar”. Isso era para ser normal durante o primeiro mês, depois tudo voltaria aos eixos, foi o que eu acreditei.

Porém eu não enfrentei bem este momento e aí entramos – ele e eu – num círculo vicioso. Como eu não me importava em acordar para amamentar, pois assim como ele eu também queria “compensar”, acabei criando o hábito das mamadas noturnas, sem saber que isso acabaria sendo uma das causas da gengivite do Pedro! Ou seja, mais uma vez, CULPADA!

Pois é, esta CULPA, que acompanha todas as mães – mais ainda as católicas que tem isso no DNA – começou a assolar a boa-mãe que eu então pensava ser.

O dentista me explicou de uma forma bem calma e extremamente objetiva que na idade do Pedro não há nenhum motivo concreto para o nenê acordar e comer tantas vezes, disse que ele pode ficar tranquilamente uma noite sem se alimentar. O bom seria que eu desse uma última refeição para ele antes de dormir e também escovasse bem os seus dentinhos antes de colocá-lo no berço. Depois ele poderia tranqüilamente ficar sem comer nada até de manhã quando, aí sim, poderia mamar. E para o meu pavor ele disse também que não fazia a menor diferença se fosse mamadeira ou peito, porque de qualquer forma minha “missão” no quesito amamentação já estava cumprida e agora ele precisava outros alimentos e o leite, fosse meu ou fórmula, não era mais o centro da alimentação dele.

Além disso ele disse que eu não precisava alimentá-lo sempre que pedisse, acrescentando que “o bebê é só id, cumpre a você estabelecer os hábitos corretos”.

Fiquei arrasada, porque para mim já está sendo um tristeza não conseguir suprí-lo com o “meu leite” e ele ter de tomar NAN, pois o “meu leite” está cada vez mais escasso. Estou sofrendo muito no desmame, muito muito muito, mesmo sabendo que está cada vez inevitável e vendo que ele não está sofrendo. Pelo contrário, ele quer o alimento e tem comido bem as papinhas e frutinhas (essas com um pouco mais de insistência) e posso dar a mamadeira ou o peito que qualquer um o satisfaz e da mesma forma. Seria muita mentira se eu dissesse que ele prefere eu, porque não é o que ocorre.

Saí de lá pensando pela primeira vez de forma mais concreta no desmame do Pedro e em como fazê-lo voltar a dormir, de uma forma que não seja traumática para ele. Quero encontrar um meio-termo entre não deixar o id solto ao deus-dará, mas também não me tornar uma “generala” insensível que acha que o nenê é uma maquininha. Quero o “equilíbrio”, como em tudo na vida, mas na prática isso as vezes é difícil!

A realidade também é que eu ainda não havia encarado isso de frente, não tinha parado para pensar, estava “levando”, achando que as coisas se ajeitariam por si sós, mais cedo ou mais tarde e isso não aconteceu. Nesse meio-tempo também não estava dando bola para não dormir e também para o fato de que a dinâmica do sono dele estava se modificando. Sim, porque no início ele acordava aos berros, mamava e voltava a dormir e, nos últimos dias, ele estava começando a não querer voltar a dormir. Aí me bateu aquela insegurança: estou fazendo a coisa certa?

Então resolvi uma coisa certa ao menos, conversar com meu marido! Acho que antes de reclamar que temos que enfrentar sozinhas todas essas questões da maternidade, é importante chamar eles para ajudarem, pois – salvo os supersensíveis, espécie rara – eles não tem o poder de adivinhação e justamente não se metem porque sabem e confiam que estamos fazendo o melhor .

Dessa conversa saí bem mais “light”, concluímos que o dentista, além de ótimo para o Pedro, foi um bom papo para mim e me fez pensar sobre as coisas que estão acontecendo desde a minha volta ao trabalho há 3 meses atrás, o que eu ainda não tinha encarado. Me conscientizei que a gengivite não é algo tão grave assim e que o fato dele estar com gengivite não nos torna os piores pais do mundo!  Decidimos que não é necessário tomar nenhuma decisão precipitada quanto a parar de amamentar, mas que posso pensar nisso sim, e que é bom colocarmos “ordem” no sono do Pedro e eventualmente isso significa dar mamadeira. E – mais uma vez – concluimos o óbvio: que não existe “a coisa certa”!

Na noite de sexta-feira, demos uma mamadeira de NAN bem reforçada para o Pedro e escovamos os dentinhos dele. Ele dormiu bem e só acordou na manhã de sábado. Sábado a noite fizemos a mesma tática, mas ele acordou duas vezes. Na primeira não demos nada, só o acalmamos e ele voltou a dormir. Na segunda, uma mamadeira com água (que não tem contra-indicação) resolveu a questão. Hoje eu ainda não sei, na última olhada que dei ele estava dormindo como um anjo! Agora é observar e rezar! Aos poucos vamos descobrindo o que é melhor para o Pedro e – por que não? – para nós.

Não somos perfeitos e, entre erros e acertos, estamos aprendendo – e nos divertindo – muito com tudo isso!

Don't worry! Be happy!

3 Comentários

Arquivado em Crescimento

3 Respostas para “A amamentação, o dentista e o id

  1. Sandra Martins da Rosa

    Querida Malu,
    você descreve muito bem e com muito bom humor as situações pelas quais você está passando. Por que voce não transforma essa experiência em livro? Esse seu primeiro ano como mãe , tão rico, intenso, alegre e muito feliz, talvez valha a pena ser contado para mais mamães jovens que é perfeitamente possível ser mãe, voltar a trabalhar amamentar, sentir as “culpas” porém o mais importante, é fazer tudo da melhor maneira possível e sem manual de instrução. Beijo. tia Sandra

  2. Cristina Miller

    ADOREI Malu (ca) !!!!! Vou passar a ser tua leitora !!!
    Beijos Cris Miller

  3. irumar

    A Sandra fez um correto comentario: escreves com muita propriedade.Bj

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